sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

No centenário de Jack Kirby quem faz a festa é você... com os importados


Num mundo perfeito, 2017 seria comemorado pelo público e editoras nacionais de quadrinhos como se fosse o aniversário de alguma grande cidade ou de algum santo padroeiro. Como sabemos, esse foi o ano do centenário de Jacob Kurtzberg (1917-1994), também conhecido como Curt Davis, Jack Curtiss, Lance Kirby (esse é ótimo), Jack Kirby. Ou simplesmente o apelido mítico que ganhou de Stan Lee: "The King".

Do fim dos anos 1950 até o fim dos anos 1970, Kirby dominava. Atualizou a estética e a dinâmica das HQs com uma fúria reformista nunca vista antes - e raríssimas vezes depois. Fez a ponte entre complexidade e simplicidade, desenvolvendo um estilo próprio que o permitia produzir páginas e páginas em ritmo industrial sem oscilar na qualidade. Nunca ninguém produziu tanto em tão pouco tempo quanto Kirby. Era praticamente um Jimmy Page dos gibis. Seu legado para as artes e para a indústria é incomparável, exercendo reflexos vívidos até hoje.

Lá fora, a artilharia Kirbyana foi incessante - não apenas neste ano comemorativo, mas nas últimas décadas. Lançamentos a todo vapor, nada sai de catálogo e a variedade de opções é impressionante. Mesmo.

Apesar disso, não é bem um cenário de reconhecimento que se vê por estas bandas atualmente, a começar por uma boa parcela dos fanboys. Já li cada bobagem sobre a arte de Kirby e ignorância sobre o contexto da época que hoje desconfio que aquelas famosas ponderações de Umberto Eco eram sobre alguns leitores de HQs. Como bem resumiu o Daniel Lopes, do Pipoca & Nanquim: "tolos".

E não ficou muito melhor com o tributo magrinho que a Panini reservou para o ano do centenário com os dois volumes de Lendas do Universo DC: Super Powers, num equívoco seletivo de dar gosto. É material inédito por aqui, certo, mas nada representativo do que foi o Rei no auge. Isso era pra ser lançado bem depois de Quarto Mundo, Kamandi, OMAC e Etrigan, o Demônio, só pra ficar na jurisdição DC. Ou, no mínimo, pra anteceder metade dessas sagas ainda em 2017.

Vão-se os centenários, ficam os importados. Se descaso é mato nessa terra, sejamos os capinadores.



Machine Man - The Complete Collection foi irresistível. Curto demais a versão 1.0 do X-51/Aaron Stack/Homem-Máquina - e de menos o upgrade Inspector Gadget engraçadinho que ele recebeu nos anos recentes. Então foi uma rara oportunidade de fechar tudo que achei legal de um personagem numa tacada só. Ou melhor... em duas.

O calhamaço é graúdo: além das participações no título do Hulk e da Marvel Comics Presents, as 440 páginas também trazem todas as 19 edições da série original do Machine - ou "Mister Machine", como era chamado em sua estreia oficial na quadrinhização do Rei para o clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço, não compilada aqui por conta dos direitos que mofam ad eternum nos cofres da MGM.

E tudo bem que não se trata de um material 100% Kirby. Afinal, ele divide metade da série solo com outro criador peso-pesado - ninguém menos que o genial e genioso Steve Ditko. Excelsior!

Nada mal como uma (Almost) Complete Collection.



The Demon by Jack Kirby é uma que entrou no meu target desde o início da pré-venda. Isso foi lá pelo ano passado, mas pareceu uma eternidade.

Uma baixa terrível, literalmente, de última hora: a substituição da capa original da The Demon #1 (set/1972), clássica e espetaculosa, por uma arte em detalhe que mais parece um flash do Etrigan com enquadramento ruim. Que o autor dessa ideia cumpra uma pena exemplar nos círculos inferiores.

E já que toquei no assunto, a Amazon anda meio salafrária ultimamente. Alguém mais encomendou aquele Cavaleiro das Trevas anunciado com capa prateada e recebeu a versão anterior, com as silhuetas do Batman e do Super?

O TPzão coleta as dezesseis edições originais de The Demon, cuja publicação atropelou os planos ambiciosos do Rei para seu xodó, a megassaga Quarto Mundo - cancelada após o sucesso nas vendas do diabão amarelo. O que, imagino, deve ter deixado Seu Kirby muito enjuriado pela sua demoníaca criação.

Deve ser a maldição do gênio da raça. Fazer o quê, se até pra chupinhar beber em fontes alheias, o Rei dava um show de preciosismo nas referências?

Seja como for, o capeta rimão aportou direto no quadrante 666 da coleção.


Há que se fazer a menção honrosa aos divertidíssimos The Demon vol. 1: Hell's Hitman e The Demon vol. 2: The Longest Day, com a dobradinha Garth Ennis/John McCrea imersa em insanidade e anarquia, e para The Demon: From the Darkness, de Matt Wagner e Art Nichols - provavelmente a melhor história do Etrigan já escrita.

Em outras palavras, o Demônio do Rei Kirby está em excelentes más companhias.


E o Máquina também.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Bebendo com Nocenti


"Bebendo com o Demônio" é, de certo, um conto de Natal que passaria ao longe do know-how criativo do bom e velho titio Stan.

Publicada originalmente em Daredevil #266, num imperdoável maio de 1989, a história ganhou um melhor timing na edição nacional, em Superaventuras Marvel #115, da Abril. Era janeiro de 1992 e a ressaca natalina ainda batia forte. Assinada pela clássica dupla Ann Nocenti-John Romita Jr., "Bebendo com o Demônio" é uma desconstrução daquele clima de paz, amor e solidariedade despejado todo fim de ano em pacotes superficiais e efêmeros.

Com sua vida pessoal em frangalhos e recém-saído de um dos piores momentos - e surras - de sua trajetória de vigilante, o Demolidor estava sem rumo e imerso numa bad trip infernal naquele 24 de dezembro.

A premissa era minimalista: o defensor da Cozinha do Inferno atravessando a noite da maior festa cristã num pub em companhia dos figurantes, dos desajustados, dos caras pequenos, dos outsiders. De todos aqueles amigos da Geni.

Personagens mundanos como uma elegante senhora numa eterna espera romântica, um marido abusivo, um reacionário de meia-idade, dois irmãos que escondem profundas cicatrizes familiares. Todos, por um breve momento, sentindo o gostinho do protagonismo. Que pode ser bem amargo.

“Alguém mordeu a maçã! Ela apodreceu naquele dia!”

Aquele microcosmo impregnado de frustrações, mágoas, angústias e pequenas tragédias humanas foi praticamente um tapete estendido para os leões que rugem na escuridão. Um cenário sob medida para mais uma incursão do diabo-in-chief da Marvel. Na época, Matt Murdock andava às voltas com o insidioso Mefisto por conta do evento Inferno. Àquela altura, a megassaga já havia acabado, mas o rei das trevas não esqueceu.

Disposto a tudo para corrompê-lo psicológica e moralmente, Matt era o 2º grande troféu almejado por Mefisto (sendo o 1º Norrin Radd, o virtuoso Surfista Prateado). Até mesmo a forma assumida pela criatura foi uma pista do que Mefisto era capaz para alcançar seu objetivo - além de servir como alusão a um dos maiores pecados de Matt. Mesmo com a tensão subindo e ruindo tudo e todos ao redor, o vigilante seguia paralisado, inerte com a culpa católica vazando pelos poros.

Nocenti estava implacável com o Demônio.

“Eles se matarão continuamente... sem parar! Morderão as maçãs!
Irmão matará irmão! Continuamente... sem parar!”

É uma leitura marcante, no mínimo. Uma das minhas prediletas.

Sempre me pareceu que uma narrativa com aquele grau de intensidade só podia ser escrita por quem viveu aquilo tudo. Ao menos a versão realística de uma solitária noite de Natal rodeado de estranhos, mas em companhia apenas de seus fantasmas (ou demônios) particulares.

E foi realmente o que aconteceu.


Em 2014, Ann Nocenti contou ao site 13th Dimension como "Bebendo como o Demônio" foi inspirado em fatos reais - e bastante pessoais. Nas entrelinhas, um depoimento de como momentos potencialmente ruins podem se revelar experiências positivas, até mesmo rendendo bons frutos no futuro.

Não precisava disso pra ser uma releitura obrigatória de Natal. Mas que foi a assinatura que concluiu a obra, 25 anos depois, isso foi...


“Pra mim o mundo não tem mais jeito! A maçã está podre! 
Não tem mais volta!”

Feliz Natal e um ótimo 2018.

domingo, 3 de dezembro de 2017

delBoy

Fábula onírica dark é comigo mesmo. Entre a ótima recepção da crítica ao novo do Guillermo del Toro, este Tim Burton do milênio, e a premissa remontando ao clássico da Sessão da Tarde Splash - Uma Sereia em Minha Vida (alô, quarentões: tamo junto), certamente vale a pena ficar de olho nesta pérola.


Mas fica a dúvida: com todas as evidências, seria mesmo um prequel secreto do Abe Sapien - com o mesmo Doug Jones por baixo das escamas - ou Mike Mignola vai ficar ainda mais fulo com o del Toro? Seja como for, só por colocar Michael Shannon e Richard Jenkins na mesma película já ganhou minha atenção.

A Forma da Água tem previsão de estreia por aqui em 11 de janeiro.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Avante, Salvat!

Sabe aquele momento no programa do Silvio Santos em que um participante já ganhou uma boa quantia em espécie e, já pronto pra partir felizão pra casa, recebe do faustiano apresentador uma proposta que triplica/quintuplica/decuplica o prêmio num tudo-ou-nada irresistível?

Pois é. A editora Salvat é o Silvio Santos do mercado brasileiro de quadrinhos. Mah-oeee.

Eu, que já vislumbrava a 3ª idade da relação com os gibis, à base de Bonellis, linhas claras e bárbaros cimérios, me vi tragado de volta à singularidade adolescente e colorida do mainstream super-heróico. Ah, para, ô.


Mas tenho meus motivos.

Essa é nada menos que uma das melhores fases dos Vingadores, com a parceria clássica-sim-clássica de Kurt Busiek e George Pérez explorando a quintessência de uma super-equipe. É o suprassumo do super-heroísmo. Juro pelas pinups de Jordi Bernet: se já vi os Vingadores batendo a Liga da Justiça alguma vez em seu próprio território, foi aqui.

Segue a grade dos três tomos (1.136 omnibústicas páginas no total!), incorporando espertamente alguns títulos extra-Avengers adjacentes.

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 01 - Os Vingadores: Avante, Vingadores!
Avengers (vol. 3) 1-11, Avengers Annual 1998, Captain America (vol. 3) 8, Iron Man (vol. 3) 7 e Quicksilver (vol. 1) 7

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 02 - Os Vingadores: Ultron Ilimitado
Avengers (vol. 3) 0, 12-22 e Avengers Annual 1999

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 03 - Os Vingadores: Lendas Vivas!
Avengers (vol. 3) 23-34 e Thunderbolts (vol. 1) 42-44

Tenho a maior parte desse run nos formatinhos e formatões derradeiros da Abril e a coisa toda digitalizada pela Marvel há alguns anos. E vai pra estante. Com a caixinha.

Só a edição 01 coletando, entre outras coisas, a descaralhante Grandes Heróis Marvel v2 #6 praticamente na íntegra (faltou o gibi #10 do Mercúrio) trazendo o inferno pessoal da minha adorada Carol Danvers, já me justifica esse desatino financeiro. Fora que lá vem Conan, Tex Gold, Vilões Mais Poderosos, extensões...

Por favor, alguém pare a Salvat.

Ps: a bem da verdade, só remanejei a verba da cancelada Black Friday da Mythos deste ano. Limões & limonadas...
Pps: SQN... a Mythos incorporou um 1º de Abril em novembro e mandou ver numa BF esticada!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

CONCUBINAS DE ISHTAR!


Na conexão cimério-capixaba da vez, A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 4: O Conquistador. O volume compreende de Savage Sword of Conan #8 a #11 e deixa evidente o quão multifacetado era o título. Estão ali contos curtos, aventuras mais longas e sagas divididas em várias partes que se tornaram momentos essenciais para a compreensão da trajetória do bárbaro. Essa diversificação também era característica da seleção de artistas sob o comando de Roy Thomas - sem, logicamente, ofuscar o protagonismo do lendário John Buscema.

Olhando em retrospecto - e em tempo real, agora, com "A Coleção" da Salvat - fica difícil pensar num título mais complexo do que Savage Sword of Conan. Apesar de metódico e obsessivo, o criador Robert E. Howard não era exatamente um adepto da continuidade. Mapear e adaptar a atribulada vida do bárbaro em ordem cronológica sempre foi um verdadeiro desafio para editores, roteiristas, tradutores, etc. Fosse nos dias de hoje, cabeças rolariam entre as deadlines industriais da Marvel.

É aí que, lá pelas tantas deste volume ("Conan, o Conquistador - parte 5: A Estrada para Acheron", 1976), surge do nada a 1ª menção em SSC à Zenóbia, futura esposa do Conan-Rei de Aquilônia.

Zenóbia havia estreado dois anos antes, em Giant-Size of Conan #2, edição não coletada nesta série por razões óbvias. Mas para entender plenamente a relação entre os dois e a linha do tempo que levou o cimério à coroa, é imperativa também a leitura do conto "A Hora do Dragão", cuja adaptação para os quadrinhos começa na Giant-Size of Conan #1 anterior, vai até a #4 e segue aqui sob o nome "Corsários Contra Stygia" até o fechamento da saga "O Conquistador" - precisamente nestas SSC #8-10. Crom!

Um embróglio editorial difícil de desenrolar e que passa ao longe da jurisdição d'A Coleção salvatiana. E evidentemente uma bola levantada perfeitinha para a Mythos cortar impiedosamente com seu megaluxuoso Conan: O Conquistador. Ora, mas que diacho, hm?

Voltando ao quarto volume, temos novamente a trinca-padrão com a intro de Max Brighel, a galeria de capas e as minibios de Thomas & Buscema.




E sem maiores problemas relacionados à impressão desta vez. O conto de abertura "O Pacto Maldito" está o fino dos tons cinzas na arte de Tim Conrad, assim como o traço de Jess Jodloman em "A Última Canção de Conan, o Cimério". Os cinco segmentos da saga "Conan, o Conquistador", de Buscema com finalização d'A Tribo, também estão acima da apresentação da "dupla" no volume anterior.

E arrisco afirmar que, se Buscema e Windsor-Smith não existissem, o Conan oficial dos quadrinhos seria o de Pablo Marcos. Em "A Maldição da Deusa-Gato", o cimério ronca e vomita fogo, como se um cometa explodisse dentro de um vulcão em erupção*, pronto responder a um simples "bom dia" com uma machadada na testa. Perto dele, os personagens de Hokuto no Ken fugiriam correndo para a aula de balé mais próxima!

* parafraseando meu personal Obi-Wan Berrah de Alencar!

Claro que não podia deixar de destacar a saga em seis partes "A Fortaleza dos Condenados". Essa foi realmente minha menina dos olhos deste vol. 4. Em sua maior parte pela química do traço de John Buscema com a arte-final soberba do filipino Yong Montano. O homem é um monstro do nanquim, um mestre nas sombras, detalhes, texturas e expressões. Ao mesmo tempo em que traz uma pegada densa e carregada, também turbina as sequências de Buscema com um dinamismo que poucas vezes vi.

Um espetáculo que rouba a cena até mesmo da histórica aventura-título. Obrigatório é pouco.

Junto com o volume, a Salvat incluiu uma cartinha bastante cordial agradecendo o apoio à "distribuição local avançada" e se disponibilizando para o ressarcimento dos valores gastos nos 4 volumes.


Obrigado, mas passo. So far, so good.

Então... será que finalizaram os testes? E qual terá sido o resultado?

A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 1
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 3

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os mutantes atrás das paredes

Com um timing sobrenaturalmente amplificado pelas forças arcanas que permeiam esta data, a Fox liberou um surpreendente trailer de Os Novos Mutantes.


A estrutura e a atmosfera são velhas conhecidas, bem como as homenagens e os "empréstimos" de várias fontes do cinema. Só a cena da parede é um recurso já utilizado em um sem-número de longas, de A Hora do Pesadelo a Dia dos Mortos, sem falar n'outro dos meus filmes de cabeceira, que foi o primeiro que me veio à cabeça enquanto assistia o promo. O que espanta é o tom.

Mesmo após a série Legion, ainda é algo insólito/acachapante ver os mutantes da Marvel figurando num thriller de terror.

E, sabe, gosto disso. Demais. Tenho a (vã?) esperança de que economizem no CGI para não sabotarem esse clima na reta final com um show de luzes coloridas, explosões e pessoinhas digitais.

O elenco parece fabuloso. Anya-Taylor Joy no papel da Illyana (quantos y's!) e Maisie Williams como Rahne são quase transposições literais dos quadrinhos. Já Charlie Heaton não lembra em nada o rocket-man® Sam Guthrie, porém o rapaz é inglês e só por isso já tem crédito na casa. E é sempre legal ver brasileiros marcando presença no mainstream - só aqui temos dois: Henry Zaga como o Mancha Solar, mais a bela e, até há pouco tempo onipresente, Alice Braga como a Dra. Cecilia Reyes.

Mas pretendo ficar de olho mesmo em Blu Hunt como a Danielle Moonstar. Ela bem que poderia ser o gancho futuro para a adaptação da minha saga preferida dos mutuninhas, também uma arrepiante trama de horror.

O "Xis" pra câmera ao lado do Bill Sienkiewicz eles já disseram.


Os Novos Mutantes tem previsão de estreia para 13 de abril de 2018. Outra sexta-feira...

Bom dia!


Muitas alegrias nesta sexta!

E fica a pergunta que nunca quis calar: seria Jason Voorhees um zumbi? Certezas, chutes e teorias nos comentários e na enquete aí ao lado.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Back to U.S.S.R.


Muito antes de chafurdar no mainstream global em produções como Guardiões da Noite e, err, Guardiões e virar a Hollywood dos Urais, o cinema russo - ou, melhor contextualizando, soviético - enfileirou clássicos absolutos da 7ª arte. O conjunto da obra era arrebatador: técnicas inovadoras, uma nova expressividade dramática e narrativa, metáforas universais que, em teoria, jamais passariam pelo crivo censor do Estado, e por aí vai. Um legado histórico reconhecido por reverências e tributos até mesmo pelos estrangeiros do oeste.

A impressão é de que os bolcheviques também disputavam com o Ocidente outra acirrada corrida, a cinematográfica.

Aí veio o gol de placa da TV Brasil, emissora aberta cujo conteúdo de orientação progressista-com-neurônios me é agradabilíssimo: em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o canal irá exibir uma seleção de 11 filmes clássicos da Era de Ouro do cinema soviético a partir do próximo domingo, dia 15 de outubro, sempre às 23 hs.

É o Outubro SoviéticoУра!

E a chamadinha é espetacularmente эффектный!


Segue a programação (sinopses no site):

15/10, domingo: O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein - drama mudo
16/10, segunda-feira: O Conto do Czar Saltan (1967), de Aleksandr Ptushko - fantasia
17/10, terça-feira: Vassa (1983), de Gleb Panfilov - drama
18/10, quarta-feira: A Mãe (1989) (não confundir com Mãe! LoL), de Gleb Panfilov - drama
19/10, quinta-feira: Boris Godunov (1986), de Sergei Bondarchuk - drama
20/10, sexta-feira: Um Acidente de Caça (1978), de Emil Loteanu - drama
21/10, sábado: Arsenal (1929), de Aleksandr Dovzhenko - guerra
22/10, domingo: O Velho e o Novo (1929), de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov - drama mudo
23/10, segunda-feira: As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolcheviques (1924), de Lev Kulechov - comédia muda
24/10, terça-feira: Cossacos do Kuban (1949), de Ivan Pyriev - comédia musical
25/10, quarta-feira: Lênin em Outubro (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev - drama

Cinema pra proletariado nenhum botar defeito. Imperdível.

Ps: mas é claro que vou completar a rodada com Solaris (1972) e Stalker (1979), do mestre Andrei Tarkovsky, que não sei por que perestroikas não entrou na lista. Questões de Estado, certamente.


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E com timing impecável, essa semana também chegou em minhas pútridas mãos um material de leitura à caráter.


O Cosmonauta de Krypton. Também conhecido como Superman - Entre a Foice e o Martelo, quando poderia ter sido conhecido como Superman - O Filho Vermelho, simplesmente.

Seja como for, é a hora mais do que apropriada para rever cenas como aquela que me fez pensar na gravidade de um Super-Homem sendo arremessado de um lado pro outro de um centro urbano. Situação de DEFCON 1/sebo nas canelas - ou o índice apocalíptico equivalente cunhado pelo Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti.


O efeito de uma bala perdida? Não, de um ICBM perdido

Foram 774 vítimas fatais só nessa página. E algumas dezenas de milhões de libras em danos materiais.

Mas isso foi bem antes do filme, claro.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Enigma em setenta milímetros


Quem estiver passando de bobeira por Portland, OR, entre sexta e domingo que vem, pelamordeCarpenter não deixe de conferir a exibição de O Enigma de Outro Mundo no Hollywood Theater em toda a glória de seus raros 70 mm. Oportunidade única para juntar mais peças daquele quebra-cabeça. 1982 é no próximo final de semana!

A linda arte promocional foi feita por Dan Brereton (Batman - Pulp Fiction) com indisfarçável carinho pelo filme.

Fico me perguntando por que esse tipo de evento não ocorre com mais regularidade também por estas bandas (a rede Cinemark chegou a exibir alguns clássicos há um tempo). De preferência com todas aquelas pérolas - hits e/ou cult - que marcaram a década de 1980, como A Hora do Espanto, Noite dos ArrepiosConan o Bárbaro, Evil Dead, Mad Max, A Volta dos Mortos-Vivos, O Exterminador do Futuro, Re-Animator, Robocop, A História sem Fim, Blade Runner, O Clube dos Cinco, Miracle Mile (lógico!), A Lenda, Poltergeist, Top Secret!, Excalibur, Predador, Scarface, etc. e etecéra pra caramba.

Pra mim, isso é que seria uma maratona pop. Eu iria fácil.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A última dança de Tom Petty

Tristes dias nos Estados Unidos.


Tom Petty
(1950 - 2017)

Thomas Earl Petty sempre foi mais conhecido lá fora do que por essas bandas. Poucos artistas personificaram tão bem o espírito do rock 'n' roll tradicionalista yankee - e ainda tocar nas rádios, em trilhas de filmes e figurar nas paradas da Billboard.

Sua partida surpreendeu meio mundo. Apesar do físico franzino, Petty parecia uma daquelas entidades estradeiras, virtualmente imortais, que sempre estariam por aí, provavelmente até o mundo se despedaçar de vez.

E que música sensacional ele fazia, seja solo, ao lado dos Heartbreakers ou com o supergrupo Traveling Wilburys. Eu adorava.


Thanks, man.

E segue a morte, a vida. Por hora, vou de Wildflowers (1996).

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CROM E MITRA!


Dando sequência à saga do lendário bárbaro/capitão/pirata/rei cimério, a Salvat lança pelos circuitos setorizados A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 3: A Maldição da Lua Crescente. Em três edições pontualmente quinzenais, a editora deve ter tirado algumas lições preciosas com a recente distribuição de materiais com baixa tiragem. Ao contrário das coleções da Marvel em capas preta e vermelha, a regularidade aqui tem sido britanicamente impecável.

Da treta muito louca da Panini (parceira na empreitada) com a distribuidora Total-ex-Dinap, pelo visto, só chegou a "marolinha" - e vamos bater na madeira 3 vezes, por favor.

O que mudou? Não faço ideia, já que esse tipo de informação as editoras brasileiras guardam como se fossem códigos de ogivas nucleares. Me atenho aos fatos - e volumes - empíricos.

Por exemplo, a única grande mudança ardeu os olhos, mesmo já prévia e fartamente anunciada.


"Achou que eu estava brincando?" - Salvat, com um bastão de baseball

Já distante dos idílicos tostões que custearam os dois primeiros volumes, o preço real de 44,90 reais foi realmente de um choque de realidade. O que me leva a mais e melhores cálculos e à possibilidade concreta de dar um hiatão nesses posts E$pada $elvagem, além de repensar o timing da entrada de cabeça nas assinaturas do ano que vem. E o mais importante, tomar um remédio para verme extraforte.

Voltando aos fatos, o pacote bárbaro daqui pra frente não será mais pacote: só a edição lacrada.

Menos glamouroso, mais prático = Melhor assim.




Os bônus são sucintos: novo prefácio do editor Max Brighel, galeria de capas e uma belíssima chamada para o próximo volume.

Entre as histórias, Alfredo Alcala dá mais um show de finalização no clássico "A Cidadela no Centro do Tempo", o veterano dos gibis de terror Sonny Trinidad (ah, esses filipinos) deixa sua marca em "O Terror Dorme Sob a Areia" e até a arte estranha e vanguardista de Alex Niño (ah, esses filipinos²) combina bem com a história estranha e vanguardista de "O Povo da Escuridão". E claro que não poderia deixar de destacar o arco-título em oito capítulos onde Conan se vê às voltas com a linda e traiçoeira bruxa Salomé.

É nesse épico de Roy Thomas e John Buscema que acontece um dos momentos mais icônicos do personagem, transposto inclusive para o filme de 1982: a crucificação de Conan e a antológica sequência do abutre na "Árvore da Morte". Com certeza, uma das minhas aventuras favoritas do cimério.

Infelizmente, também é ali que a problemática digitalização da Dark Horse faz mais vítimas. Desta vez, foi a arte-final de The Tribe - o time de filipinos que finalizava artes para a Marvel e que tinha em suas fileiras o grande Tony DeZuñiga (ah!). Cheia de nuances suaves nos sombreamentos e tons de cinza e/ou aguados®, o acabamento orgânico e mundano da equipe levou um banho de água sanitária da editora do cavalo preto.

Detalhes de painéis mais trabalhados ficaram bem apagados, lembrando aquelas famigeradas impressões pixelizadas que ninguém gosta de lembrar. Basta comparar algumas das amostras com as respectivas artes originais. Em alguns quadros o nanquim vira um lápis. De lascar.

Friso, não é culpa da Salvat, os arquivos digitais já vieram assim, é o que tem pra hoje, etecétera e tal.

Felizmente, no restante da edição a parte gráfica segue em bom nível. O volume defende com tranquilidade o status de acervo histórico da série e, confesso, é algo emocionante ver A Espada Selvagem de Conan já atingindo seu #7 original bem adaptado, na íntegra e em capa dura.

Parece até que já estou vendo algo se formando no horizonte...




Sim, sim... estou vendo algo! Estou vendo algo!!

Só gostaria de ter uma casa maior ao redor dessa estante.

A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 1
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2