quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

You can dance, you can bite

Já fazem uns bons 30 anos desde que John Landis botou os mortos-vivos para balançarem os esqueletos (literalmente) no icônico vídeo de Thriller. O grupo indie rock John Butler Trio resolveu dar continuidade à tradição e deu uma entortada no mortus operandi das criaturas, resultando num mix desengonçado-mas-bacanudo do clássico do Jacko com o filme Meu Namorado é um Zumbi.


Segundo o próprio John Butler:

“‘Only One is one of those ‘turn around’ songs. The idea of a Zombie love story came to me a while ago. I wanted the song and video almost to be juxtaposed but still somehow have an element of love… and humour. I think we made a seriously cool and funny video. I love it. Even if I do look dead!”

E ainda ficou parecendo os mariachis de Um Drink no Inferno, caso tivessem sido mordidos por um zumbi ao invés de um vampiro. Dadas as condições de trabalho no Titty Twister... wrong undead.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

We have a Hiddleston


Thor: O Mundo Sombrio adota parcialmente a estratégia bigger-stronger-faster das sequências cinematográficas. No caso, maximizando apenas alguns dos ganchos do Thor edição #1, sendo o mais proeminente o inusitado humor físico - com resultados pra lá de variáveis, é verdade, mas, ei, estamos vivendo num mundo onde se produzem continuações ao vivo & arrasa-quarteirão do Thor... o quão orgástico é isso pra quem um dia teve que se contentar com os desenhos inanimados da Grantray-Lawrence? Além do mais, se na estreia do asgardiano imperava uma vibração condescendente e refém do evento Os Vingadores, O Mundo Sombrio se revela mais independente, malandro e ambicioso. Ao menos bem mais do que, por exemplo, Homem de Ferro 3.

Uma das maiores qualidades do filme é justamente a valorização da química proposta na primeira aventura. Voltam todos os elementos grandiosos/hollywoodianos de Asgard e o microcosmo indie terrestre - algo montado até com certa ousadia pelo diretor Alan Taylor e pelo roteiro a 3 mãos (chutando que nenhum é ambidestro) de Christopher Yost, dos divertidos Hulk vs., Christopher Markus e Stephen McFeely, que souberam extrair novamente bons frutos da colisão improvável entre esses dois extremos. Nota-se que não apenas apostam, mas de fato acreditam no material que herdaram. Claro, nem tudo é perfeito e o filme tem lá sua dose brobdingnaguiana de clichês e forçadas de amizade, mas até aí, a cota está dentro dos limites do cinema mainstream - não só o dos EUA.

A abertura de O Mundo Sombrio é praticamente um revamp da intro do primeiro filme, retrocedendo em 1 geração a família de Odin e apagando os Gigantes do Gelo para colar os Elfos Negros por cima. Remanescente de uma época em que ainda não existia a luz, a raça ancestral é liderada por Malekith, que pretende usar uma força obscura chamada Éter para jogar o universo de volta à escuridão, mas é derrotado por Bor, governante de Asgard e pai de Odin. Nesse ponto fiquei pensando como seria interessante uma abordagem maior desse personagem, que, apesar de sábio e o deus-in-chief, transparecia ser pouco mais que um guerreiro rústico e selvagem, fazendo o contingente asgardiano atual parecer um catálogo de modelos da Gucci. Só que a batalha é mostrada já em seus momentos finais (o ator, Tony Curran, sequer é creditado) e a narração em off de Anthony Hopkins, o Odin em pessoa, logo dá lugar a uma sitcom na Terra. Bizarro assim. Mas um bizarro bom.

Por incrível que pareça, esse crossover de gêneros funciona, já que o roteiro é bastante espirituoso ao desenvolver o segmento pessoas/rotina/perrengues do dia-a-dia. E o elenco, agora radicado em Londres, retoma a sintonia: Natalie Portman reprisa sua Jane Foster amargando uma fossa pelo sumiço do seu Deus do Trovão favorito enquanto tenta fazer a fila andar a contragosto (pueril, mas ótimo momento o do encontro no restaurante, graças ao timing cômico de seu parceiro de cena, o inglês Chris O'Dowd); Stellan Skarsgård faz um dr. Erik Selvig completamente noiado após sua experiência em Os Vingadores (impagável, mas eu podia passar sem vê-lo balangando as castanhas em Stonehenge); Kat Dennings continua fazendo com sua Darcy o que faz com toda personagem que cai em suas mãos, ou seja, cara de whatever; já o novato Jonathan Howard, que interpreta o estagiário Ian, é um raro caso de coadjuvante cômico da coadjuvante cômica (Darcy), também não muito feliz em nos fazer felizes.


Enquanto na Terra a vida segue, em Asgard, Thor (Chris Hemsworth, completamente à vontade) e seus camaradas concluem uma guerra de 2 anos que pacificou os Nove Reinos após as traquinagens de Loki - que pode até não ser um deus per se, mas com certeza dividiu o calendário de Tom Hiddleston em "antes de Loki" e "depois de Loki". Tudo corre bem, Asgard está em paz, Loki está em cana e Thor vê a sucessão de Odin cada vez mais próxima, mas aí o caldo entorna com o retorno de Malekith - que não desistiu de restabelecer seu antigo way of life, não hesitando em sacrificar seus semelhantes pela causa - e do reaparecimento do Éter, o elemento que fará a diferença numa guerra contra a toda-poderosa Asgard.

Há uma metáfora redondinha aí sobre a política externa dos EUA e seus reflexos pelo mundo, com direito à nave batendo em torre e tudo. É o tipo da coisa que o cinemão hollywoodiano vomita sem perceber e que faz o Žižek lavar a égua com Lux Luxo. Mas vou praticar o silêncio de rádio aí, pois a vida é muito curta. Apenas uma coisa: não há lugar melhor para captar o pensamento norte-americano, conservador ou liberal que seja, do que num blockbuster. Não pela mensagem que eles querem transmitir, mas pela mensagem que eles nem imaginam que estão transmitindo. Spy this, NSA.

Não deixa de ser instigante a estética Terra-Média-encontra-Guerra-nas-Estrelas da periferia asgardiana. Um saudável fuzuê pop-cultural com trolls, alienígenas e cavaleiros se digladiando com machados, espadas e armas de raios é a liberdade criativa primitive-future definitiva. Sword & sorcery &, porque não, sci-fi. He-Man e os Defensores do Universo agradecem. Thundercats e Thundarr, o bárbaro, mais ainda. Ver a Natalie Portman mais uma vez se aventurando nesse contexto foi um agradável déjà vu. Igualmente curioso é o centrão de Asgard, com arquitetura à Oscar Niemeyer in the 25th Century e naves "aladas" que lembram coisas d'O Incal, do mestre Moebius. Meio acachapante ver isso com tamanha amplificação sem esperar. Durante a invasão dos Elfos Negros eu queria mais era descer ali numa avenida qualquer e interagir com os cidadãos, conhecer a gastronomia local, bater umas fotos...

Esse esmero visual se repete no filme inteiro harmoniosamente; ao contrário do anterior, não há efeitos de 1ª convivendo com outros meia-boca. Pena que o coração nem sempre esteve no lugar certo. Um bom exemplo foi a deliciosa referência sabor Harryhausen à primeira ameaça que Thor enfrentou nos quadrinhos - um legítimo kronan da raça de guerreiros de pedra que o loirão combateu em sua estreia, muito bem-feito e impressionante. Aquilo foi de encher de amor e ternura o coração fanboy, mas a conclusão incrivelmente abrupta foi como levar um fora via SMS com emoticon triste no final. Por ali já dava pra ver que o cineasta Alan Taylor (claramente um não-nerd), ao contrário de Joss Whedon (obviamente um nerd), não ia se render tão fácil ao doce prazer culpado de gastar alguns milhões do orçamento em uma sequência de porradaria-pela-porradaria igual aos quadrinhos.

Aliás, Taylor deixa seu DNA profissional bem impresso ao longo da trama, particularmente a experiência acumulada em séries de ponta. As conspirações, subtramas, dramas familiares e anti-heroísmo têm um pé fincado em Game of Thrones, Roma e Família Soprano, sempre para o melhor. Em contrapartida, o delivery escancarado pra mocinha boba suspirar alto denuncia os vários episódios que dirigiu em Sex and the City. Pela primeira vez as namoradinhas de plantão vão gostar de ter ficado até o fim dos créditos. E pela primeira vez, eles não.


O Malekith do ótimo Christopher Eccleston é mais sombrio e unidimensional que o dos quadrinhos, onde era um tipo manipulador e shapeshifter, Loki-like. Em compensação, era bem menos poderoso, então fica elas por elas. Kurse nos quadrinhos era mais legal, mas esteticamente impraticável num filme - podiam ao menos ter poupado aquela bobagem de guerreiros "kursed". Já Odin, está mais irascível e menos ponderado, o que é compreensível dadas as recentes guerras e turbulências familiares, enquanto a Frigga de Rene Russo finalmente tem algo a dizer e fazer, sendo vital para uma das reviravoltas da trama.

Os Três Guerreiros tiveram uma participação tímida (Hogun foi dispensado logo de cara), com exceção do novo Fran "Chuck-você-por-aqui?!" dal, estranhamente destacado e mostrando que o agente de Zachary Levi é dos bons. E foi um crime o desperdício da Sif da deusa Jaimie Alexander. Além de boa atriz que convence nas cenas de ação, as diferenças parsecquicas entre Sif e Jane renderiam um triângulo promissor com o rapagão do martelo, o que foi tratado de forma apenas superficial.

Um dos aspectos discutíveis foi a superdosagem de humor, principalmente na 2ª metade. Se no filme de Kenneth Branagh o clima jovial já trafegava no limite, aqui a coisa acelera na ladeira - a já citada presença de dois coadjuvantes cômicos, mais Skarsgård no Jackass mode, não é menos do que sintomático. Chega a prejudicar a sequência final, diluindo qualquer tensão e sensação de perigo relativa ao ataque dos Elfos Negros em Londres. Até a luta entre Thor e o Malekith deusificado pelo Éter - bacana e expensive, se revezando entre dois mundos - ganhou toques engraçadinhos. Era só o universo conhecido que estava em jogo ali.

Fora que já deu assistir vilões de filmes conquistando seus respectivos MacGuffins-fontes-inesgotáveis-de-poder, pra depois não saber o que fazer com eles e, pior, serem derrotados num mano a mano com o herói. Thanos, a maior antítese disso nos quadrinhos, que se cuide.

Algumas inconsistências também batem ponto no roteiro, sendo a maioria TOCs aparentemente incuráveis do cinemão pop. Então dá pra eleger uma preferida e abstrair o resto em nome da busca pela felicidade: fico com a cena em que Jane e Thor se abrigam na mesma caverna onde está o portal de convergência com a Terra, no exato momento em que o celular dela está tocando por lá. Uma beleza de atentado ao item #19 das regras do bom roteiro propostas por Emma Coats, da Pixar. Escolhi bem ou não?


Como sequência, Thor: O Mundo Sombrio cumpre seu papel sem fugir ao script, não fosse um trunfo que o projeta sensivelmente acima do padrão: Tom Hiddleston, sério candidato a maior rockstar da Marvel Studios pós-Robert Downey Jr., talvez até apressando esse fim de era. Com um senso soberbo de continuidade, o ator não parou de evoluir e enriquecer o personagem em relação às já memoráveis performances em Thor e Os Vingadores - até porquê é evidente que ele está se divertindo pra caralho ali - e ainda gera interesse de sobra para justificar novas situações e aventuras. Solo, inclusive.

Ao final, fiquei muito mais curioso pelo "what's next?" de Loki do que o de seu meio-irmão. Fez por merecer essa sua "trilogia trapaceira" (a única do gênero!) e, tomara, os vários capítulos que virão, como deixa antever a conclusão.

Em Loki eu confio. Epa...

Thor: O Mundo Sombrio ("Thor: The Dark World", Estados Unidos, 2013), 111 min.
Direção: Alan Taylor
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Christopher Eccleston, Jaimie Alexander, Zachary Levi, Ray Stevenson, Idris Elba, Rene Russo

Ps: então... Guardiões da Galáxia será esse camp todo mesmo? Schumachers me mordam.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Kneel before Thor


Nem sempre são as grandes produções que nos marcam. Às vezes, esse papel é assumido por filmes com ambições mais modestas, escapistas, não raro beirando o guilty pleasure. Foi mais ou menos meu caso com Uma Noite de Aventuras (Adventures in Babysitting, 1987), com a adorável Elisabeth Shue no auge de sua adorabilidade. A história era um Depois de Horas adolescente safra anos 80, levando o(s) título(s) ao pé da letra. Figurinha fácil na Sessão da Tarde até uns anos atrás. E eu, telespectador fácil do filme, sempre que podia. Por uma inesperada afinidade.

Por exemplo: um dos garotos é apaixonado pela personagem de Shue, a tal babá (leia-se garota mais velha-quase mulher), que se mostra compreensiva, lisonjeada, doce e totalmente demais ao lidar com esses sentimentos (por causa dessas coisas que ele se apaixonou em primeiro lugar) antes de tentar dissuadí-lo com pretextos do calibre de você-tem-a-vida-inteira-pela-frente e o destruidor a-nossa-amizade-é-muito-mais-importante e se voltar para o seu verdadeiro target romântico, que é independente, descolado e está na mesma faixa etária que ela... ai... alguém mais precisa uma bebida?

Se isso bateu forte, o que dirá da irmãzinha caçula do rapazote de coração partido: um autêntica fanboyzinha do Thor, colecionadora de gibis e pôsteres do herói, e que usa roupas com as cores dele - com direito à elmo com asinhas e um Mjolnir de plástico!

Logicamente, ela e seu ídolo são zoados o tempo todo pelo irmão mais velho, mas isso até ela e o próprio "Deus do Trovão" salvarem a pátria numa cena emocionante...


Confesso que só um tempão depois percebi que era o Vincent D'Onofrio ali. Ator improvável, atriz improvável e até herói improvável (Thor, referenciado numa comédia juvenil em plena década do neon?). Mas de alguma forma a química aconteceu e até a essência do que é ser um herói está lá, fazendo o que os heróis fazem: a diferença.

Uma das homenagens mais bacanas que o cinema já prestou aos quadrinhos.

God of Thunder vs. Black Metal King!

Achaste que o Thor do estúdio The Asylum e o Thor do velho seriado do Hulk eram os piores deuses do trovão já personificados? Digo-te não!, valoroso amigo! Há muito, muito tempo atrás, num mundo muito, muito distante (o 1º) havia uma famosa revista especializada em heavy metal...


Publicada na Kerrang! em 1984, a presepada fotonovela "Thor versus Cronos: When Titans Clash!" trazia protagonistas que eram seus próprios personagens, por assim dizer: o bodybuilder, ator e cantor Jon Mikl Thor, da banda de heavy/hard Thor, e Conrad "Cronos" Lant, baixista e vocalista do Venom.

Considerando que Thor (o Jon Mikl) construiu toda a sua "carreira" em cima do mito nórdico e que Cronos é o tataravô do black metal, ambos sempre com indumentárias de guerra e tudo, pode-se dizer que o Bem e o Mal estavam bem representados. E que qualquer senso de ridículo foi completamente desintegrado em nível atômico. Se existe uma prova de que os dois entraram pra esse negócio pra valer é essa.

Além das bravatas falaciosas, sangue falso e canastrice suprema até para fazer poses, destaque para a amada do herói, a "Pantera" mais famosa do metal até o surgimento de Phil Anselmo & cia...


Detalhe para os créditos, com desculpas prévias à Stan Lee. Chorei.

Via Bazillion Points.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poderoso Thormento


Esculhambar O Poderoso Thor é muito pior que chutar cachorro morto. O longa para TV foi mais uma incursão do estúdio The Asylum, desta feita, para capitalizar em cima do hype do Thor da Marvel Studios. Então era mais que óbvio que sua natureza seria de subproduto genérico rasgado. Mas O Poderoso Thor consegue ser avant-garde em sua incompetência. A produção está muito abaixo do status de ruim, pois até pra isso existe o pré-requisito básico de querer ser um filme. E essa ambição em nenhum momento se desenha nessa pilha fumegante de estrume. Qualquer esforço em racionalizá-lo enquanto forma de arte - mesmo a mais pedestre possível - supera facilmente todos os esforços dispendidos desde sua concepção até a sua exibição - no que, creio, ter sido uma noite trágica para o canal Syfy.

Em comparação ao Thor-filme, às diversas versões de Thor dos quadrinhos, ao da mitologia clássica, à reimaginação alternativa bitolada que seja, é o equivalente filmográfico à restauração do Cristo de Borja, sem o apelo da piada involuntária. É um anti-filme mais carne de pescoço que muito filme experimental por aí.

Enfim.

Fica claro que o orçamento foi todo captado no semáforo com a venda de paçoquinhas superfaturadas. Qualquer sombra de técnica e planejamento inexiste, soando como se tivesse sido criado na hora em que as câmeras foram ligadas, num único take é-tudo-ou-nada na "melhor" tradição de Ed Wood. Mesmo assim, um bacana chamado Christopher Ray (de Mega Shark vs Crocosaurus!) assina a direção, deixando Uwe Boll feliz da vida ao parecer Stanley Kubrick perto dele. Pessoalmente, acho que qualquer pobre coitado, na condição de apaixonado por cinema, conseguiria salvar um abacaxi desse, mesmo sem um tostão no bolso e nenhuma linha decente no roteiro. O fator diversão está aí pra isso mesmo.

Em O Poderoso Thor ele também aparece, à prestação e por puro acidente, espremido entre a preguiça mastodôntica da trama escrita (sic) por Erik Estenberg e a canastrice de todos os envolvidos.


Esqueça qualquer fidelidade ao panteão de divindades nórdicas, porque o roteirista aparentemente nunca ouviu falar em ninguém ali. No início, vemos Odin e seus filhos Baldir e Thor, fugindo de Loki... isso mesmo, fugindo (!)... enquanto tentam salvar uma Asgard em CGI de 8-bits do ataque iminente do deus da trapaça. Loki planeja destruir a Árvore da Vida (Iggdrasil, que, logicamente, nunca é citada aqui) e assim apagar o universo e recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Para isso ele precisa do Martelo da Invencibilidade (!!) - na verdade um enorme paralelepípedo num palito - que pertence à Odin (!!!). Durante a luta, Loki mata Baldir e Odin (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) e a responsabilidade de guardar o Martelo fica com o jovem e inexperiente Thor.

O parentesco entre Loki, Odin e Thor nunca é mencionado (quiçá conhecido pelos realizadores) e seu visual parece um filhote do Edward Mãos de Tesoura com o que restou da fantasia do Esqueleto de Frank Langella.


Por sinal, é difícil precisar se sua fisionomia disforme e decrépita é resultado da maquiagem ruim ou se sequer houve maquiagem mesmo, já que se trata do ator Richard Grieco no papel. Sim, o Richard Grieco.

Antes de prosseguir, um pouquinho de cultura inútil para quem tem menos de 35...

Na reta final dos anos 1980, Richard Grieco era uma das figuras mais promissoras de Hollywood, encabeçando a turminha pós-brat pack que formaria a próxima safra de novos astros. No caso dele, graças ao sucesso de um dos personagens mais populares da série 21 Jump Street (aqui Anjos da Lei) - onde, dizem, rivalizava feio com Johnny Depp - e inclusive ganhando até uma série spin-off. Grieco era um dos maiores salários da TV na época.

Na crista da onda, ele pediu as contas da telinha e aterrissou de 1ª classe em Hollywood. Espião por Engano (If Looks Could Kill, 1991), seu 1º filme "solo", porém, não teve uma grande receptividade da crítica e nem do público. Mas serviu para marcar território.


Grieco era jovem, galã e famoso, o franco next-big-thing daquela geração. Só que o rapaz tomou uma série de decisões pra lá de equivocadas: sucessivas plásticas que detonaram seu rosto, um mergulho de cabeça (de nariz, pra ser mais exato) num relacionamento cocainômano com a ex-deusa Yasmine Bleeth (de S.O.S. Malibu), escolhas medíocres de filmes e a carreira de ator sendo gradativamente colocada de lado para dar lugar aos seus trabalhos como pintor abstrato, músico e escritor de poesias.

Não deu outra: Grieco desapareceu. Acabou virando uma lenda urbana para assustar atores e atrizes iniciantes em Hollywood. Um manual prático de tudo o que não deveria ser feito naquele negócio.

Mas voltando (tsc)...


Com esse background todo, ele acaba deixando um pouco mais fácil comprar o ódio e a frustração de Loki, que em nenhum momento é contextualizado apropriadamente. Aliás, ninguém é contextualizado ali. Nunca.

Minha primeira pista de que eles estavam pouco se estrepando para o que filmavam foi Odin. Um brutamontes musculoso e cheio de tatuagens, o Allfather mais parecia um motoqueiro hell angel. Ou um wrestler. E eis que o sujeito, chamado Kevin Nash, é mesmo um wrestler!

Por mais estranho que pareça, essa foi uma boa ideia derivada daquele fator diversão anteriormente citado. Ok, é preciso um certo paladar B para apreciar tal iguaria. Tenha em mente o Papai Noel hardcore da versão Santa's Slay ou o de Lobo Paramilitary X-Mas Special...

Mas, novamente, foi apenas acidental, pois essa deixa para o escracho nunca é aproveitada como deveria.


Com Odin e Baldir despachados pro Valhalla, o que se segue é Loki perseguindo Thor para obter o tal Martelo da Invencibilidade (Mjolnir quem?). E assim vai até o final, assassinando sem a menor piedade tudo o que o conceito de narrativa nos proporcionou desde os tempos do teatro grego.

No papel do deus do trovão está Cody Deal, a resposta norte-americana, com juros exorbitantes, ao cigano Igor. Dizer que ele é péssimo seria corroborar de algum modo que ele é, de fato, um ator, então prefiro me abster. Mas infelizmente não é só isso. De "poderoso" esse Thor não tem nada. É covarde, burro, chato, pedante, infantil, cara de mamão, uma bruta sacanagem que fizeram com o viking.

Teria apanhado muito mais de Loki, não fosse o auxílio de Jarnsaxa, guerreira e ex-serva de Odin, que salvou seu rabo de ser fritado quatrocentas e oitenta e oito vezes no resto da bagaça. Fora as vezes que o impediu de fritá-lo ele mesmo em algum de seus acessos de idiotice.



Pra ser sincero, Jarnsaxa foi a única razão de eu ter conseguido chegar ao fim de O Poderoso Thor. Mesmo durando cerca de 1 hora e meia (com os créditos), é uma das coisas mais inassistíveis que já tive o desprazer de testemunhar. Chegou a me dar saudades daquele tratamento de canal.

Como uma feliz providência do destino, Jarnsaxa foi interpretada pela Patricia Velásquez (a Anck-Su-Namun, a amada do feiticeiro Imhotep, da franquia A Múmia), ainda espetacular aos 40 e poucos anos e parecendo uma Sandra Bullock latina. E você que reclamava do Heimdall afro.


Apesar de Patricia quixotescamente tentar atuar ali, foram as coxas esculpidas e o umbiguinho libertino de Jarnsaxa que me guiaram através daquela provação.

Já na Terra, onde todas as ruas são transitadas pelas mesmas 6 pessoas, Jarnsaxa ensina algumas coisinhas bacanas a Thor.


Óbvio que sem grandes resultados práticos, mas que, visualmente, até têm seu apelo. É mais uma daquelas boas ideias mal-aproveitadas.

Muito mal-aproveitadas, aliás.


Quando Thor eventualmente é derrotado por Loki, que se apodera do Martelo e o manda direto para o Hel, os realizadores também tiveram outra grande sacada - só que desta vez, admito, apenas para sommeliers da cultura trash: em meio ao inferno escandinavo, Thor extrai matéria de um veio de lava e começa a moldar um novo martelo...

...forjando na porrada!


Além de séria candidata à cena WTF da Década, também serviu pra me acordar, pois àquela altura Jarnsaxa já tinha mandado tudo às picas e ido cavalgar com suas priminhas Valquírias (óóó, spoiler...?), apesar de, na mitologia nórdica, ela ser uma jötunn.

Mais uma vez, foi um mero lampejo de docaralhismo isolado. Eu encararia na boa um filme de horinha e meia só com essas maluquices.

No final das contas, Thor foge do Hel voando e, com seu novo martelo, destrói o Martelo da Invencibilidade - que na verdade era o Martelo da Imbecilidade - e, no processo, manda Loki também pra cucuia (não pergunte como). De quebra, salva a Árvore da Vida, a Terra, Asgard, etc., sem muitas explicações. Graças ao meu bom Odin.

Viva! Cheguei ao final!

Excelsior!!
O Poderoso Thor não é filme, é uma arma. Usado com responsabilidade, é ideal pra espantar visitas indesejadas ou partir pros finalmentes com o ser amado sem a preocupação de estar perdendo algo que preste. Do contrário, os danos psicológicos serão catastróficos e irreversíveis. Agora me dá licença que tá na hora do meu remedinho.

Ah... obrigado, dona Hatchet. Posso tomar mais um? Por favor...

O Poderoso Thor ("Almighty Thor", Estados Unidos, 2011), 92 min.
Direção: Christopher Ray
Elenco: Richard Grieco, Patricia Velásquez, Kevin Nash, Jess Allen, Cody Deal

domingo, 27 de outubro de 2013

Magia e perda


Lewis Allan "Lou" Reed (1942 – 2013)

Uma boa parte da parte boa do rock morreu hoje. Com o Velvet Underground, solo ou em parcerias, Lou Reed não apenas salvou a pop music de si mesmo em um bocado de momentos cruciais, como também lhe injetava neurônios sem moderação (às vezes sem moderação mesmo). Mais que isso, Lou representava a essência do que era ser nova-iorquino. Sua importância e seu legado são eternos, mesmo que a maioria das pessoas respire isso todos os dias em guitarras e versos alheios sem nem desconfiar.

Desde o post sobre os meus discos favoritos de 1992 eu andava numa fase de re(e re-re-re)descoberta de Lou. Há alguns dias atrás vi dois dos meus filmes de cabeceira, Cortina de Fumaça e a continuação, Sem Fôlego, onde Lou dizia que atuava. Memorável. Assim como as rusgas entre ele e Frank Zappa, a famosa "não-entrevista" com o Rev. Massari e o - entenda como quiser - louco álbum com o Metallica. Previsibilidade não era seu forte.


Eu que agradeço, Lou... eu que agradeço.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Soldado Invernal sob o comando dos Russos

Anthony e Joe Russo parecem os típicos nerds-alfa. Pelo menos é essa a impressão quando se vê os vários episódios de Community e Arrested Development constantes na ficha dos irmãos cineastas. Que também têm suas porcarias (quem não as tem, não é mesmo?). Sendo assim, eu podia até esperar por certa sobriedade fanboy na direção do novo Capitão América 2: O Soldado Invernal...

O que eu não esperava mesmo era ver um trailer tour-de-force à Michael Mann-dirige-um-Bourne-movie altamente climático e com cara de filmaço às 12 horas.


Só dia desses fui saber que existem firmas especializadas em montar trailers para cinema. Altamente profissional. E frio. Brr. Mas mesmo se os caras que fizeram esse forem os gênios da raça, de algum lugar eles tiraram essas cenas.

E só a do diálogo entre Robert Redford (!) conversando com o Capitão América (!!) já vale o filme em 3D inútil com a pipoca ruim do Cinemark.

I'll be dead

Qual não foi minha surpresa em saber que em seu novo filme, Arnold Schwarzenegger enfrentará zumbis. Maggie será um drama (!) passado num mundo onde os mortos-vivos tomaram conta do mundo, bem aos moldes dos filmes de George A. Romero pós-Despertar dos Mortos. Junto com ele está Abigail Breslin, que fará sua filhinha infectada pelo "vírus zumbi" e, portanto, com uma deadline literal.

O filme será digirido... e roteirizado... estreantes... bah. Henry Hobson e John Scott 3 são os nomes, só pra registro.

As filmagens começaram no final de setembro. Essa foto prova tudo:


Muitas coisas saltam à cabeça agora, sendo as mais inquietantes:

- Abigail Breslin, ex-menina prodígio, atual gata-gata-gata, voltando a uma "zumbilândia" e ironicamente pagando o preço daquela mentirinha (no filme ela simulava ter sido infectada);

- Plot, se bem desenvolvido, pode render à vera - vide o maravilhoso curta Cargo.

- Rota de Fuga, O Último Desafio, cameos nos Mercenários, boatos sobre novos Conan e Terminator e agora até um zombie movie... Schwarza tá pegando até resfriado;

- Ah, o e$trago que um divórcio não faz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Abismo infinito


Gravidade é daqueles filmes de uma vida. Alfonso Cuarón pode pendurar a claquete a hora que quiser, sua missão na Terra (e no espaço) está cumprida. O que vier daqui em diante é lucro. James Cameron foi um dos primeiros a dar a letra: "Gravidade é o melhor filme de espaço já feito". Vou mais longe ao-infinito-e-além: é um dos melhores filmes já feitos. Daqueles que seguram sua mão e te levam pra passear pelo momentum cognitivo da 1ª vez que você entrou num cinema e saiu embasbacado com a experiência. O filme é bom assim. Ao final da sessão, meu primeiro impulso foi correr e avisar ao mundo as boas novas. Que o mainstream hollywoodiano ainda pode surpreender com conteúdo e inteligência. Que ainda tem capacidade para utilizar todos os seus incomparáveis recursos para um resultado diametralmente brilhante. Me contive, pra não incorrer naquilo que me faz azucrinar tanto amigos que disparam impressões a esmo pela rede no calor do momento e mandando às favas qualquer resquício de análise sóbria. Resolvi esperar a poeira baixar. Mas não baixou, longe disso.

Passados alguns dias, o filme ainda me acompanha com fidelidade canina, sempre me mostrando novos truques que eu ainda não havia percebido. Ainda estou lá, a 600 km acima da superfície terrestre, absorto em terror, incredulidade e ainda assim completamente maravilhado.

Gravidade me facilitou a vida: foi incrivelmente mais fácil e rápido registrar seu rating nos indexadores de filmes que utilizo (além de me lembrar como as raríssimas 5 estrelinhas embelezam o layout). Em contrapartida, me mostrou como ando condescendente com o cinema dito comercial produzido nos últimos 15 anos ou mais. Tive que rever a cotação de vários blockbusters que não têm nem a metade do valor artístico dessa obra-prima. Foi uma revisão leve mesmo, pois se fosse levar na ponta da faca, uns 60% deles seriam classificados automaticamente como lixos derivativos e sem alma. Obviamente não me refiro aos aspectos técnicos, nem tanto ao nível das interpretações. É o storytelling mesmo. Estão colocando nego mudo pra contar história. Gente que desconhece (ou esqueceu) noções básicas de construção, atmosfera, timing e tridimensionalidade. E malocando isso mal e porcamente atrás de montagens moderninhas e CGI vazando pelo escapamento.

Apesar do meu entusiasmo quase infantil, acho correta a afirmação de que dificilmente alguém terá adjetivos que façam jus à humilde grandiosidade do filme em sua complexa simplicidade (viu, ó o desastre). Talvez Jesus fase Sermão da Montanha e olhe lá. O que ficará para a posteridade é que Gravidade é uma celebração à tenacidade do ser humano frente às mais adversas situações, mas o filme é multifacetado demais pra ficar aí. Sua trama é um estudo sobre o existencialismo, a solidão, o desapego, a (in)finitude das coisas. É ambíguo sem ficar em cima do muro, humano sem tomar partido, ousado sem perder a mão, profundo sem descambar pro cinema francês.

O roteiro, do próprio Cuarón e su hijo, Jonás (niño de sorte), com contribuições de George Clooney, é extremamente bem concebido e preciso - não existem diálogos sobrando ou faltando, nada acontece gratuitamente e todas as ações terão suas reações até o fim da história.


História que, aliás, é tão minimalista quanto poderia: durante um reparo de rotina no telescópio Hubble, um time de astronautas da NASA é surpreendido por um acidente envolvendo um satélite russo. A partir daí, o filme usa e abusa da estrutura survival horror sem se render aos clichês do gênero e tão somente para atingir seus próprios objetivos. É difícil imaginar um ambiente mais inóspito e aterrador do que o espaço. Essa constatação vem em um tapete vermelho logo na primeira cena do filme, com uma espécie de manual de regras do jogo que virá a seguir. É vasto o espectro de possibilidades extraídas da situação, desde as menores e mais simples até as mais intrincadas e em larga escala. E tudo sem sair do campo do verossímil ou, no mínimo, da especulação bem sacada.

Em um aspecto, Cameron realmente foi no alvo. Gravidade tem a melhor caracterização de espaço já registrada. Até o formato 3D - que, não adianta, considero ofensivo e a maior falácia da indústria do cinema atual - serve com uma rara eficiência ao filme. O que faz a experiência de assistir no cinema algo necessário, obrigatório até. Aquele assalto sensorial jamais será reproduzido com tanta intensidade, fúria e beleza quanto na telona - a menos que você tenha um IMAX de três andares instalado no conforto de seu lar. Puramente pelo lado visual, já é o ingresso com o melhor custo-benefício desde Contato, de 1997. Como se não bastasse, o filme também consegue ser transgressor no modo de fazer "filmes de espaço".

Justiça seja feita, Guerra nas Estrelas não foi o 1º filme a propagar o som pelo vácuo, mas foi o que atualizou e institucionalizou de vez esse recurso clássico no ideário pop. Agradeço por isso, mas sempre me perguntei por que tinha que ser sempre assim. São poucos os filmes que retrataram o espaço com suas verdadeiras particularidades, mesmo sendo a ausência de som uma característica forte que merecia - implorava para - ser explorada. Cowboys do Espaço quase chegou lá, com grandes sequências filmadas pelo Clintão, mas ainda incorria no áudio. Foi Gravidade quem colocou a teoria em prática, com resultados de fazer cair o queixo e vê-lo se espatifando no chão como se fosse de porcelana. Nada grita mais alto que o som do silêncio, mesmo.

Cenas como as do acidente inicial têm impacto em dupla camada - a estética, vigorosa e gigantesca, com mais informações do que qualquer um poderia assimilar; e a psicológica, pois você vê o tamanho do monstro, mas seu ponto de vista mundano, pressurizado e atmosferizado, não consegue processá-lo como algo que se desdobra magnífica e violentamente diante de seus olhos sem gerar um único ruído. Só isso já é assustador o suficiente, mas o melhor de tudo é que você tem a plena consciência de sua insignificância enquanto é esmagado no processo e o único barulho ensurdecedor é o do desespero tomando conta dos seus pensamentos. É intimidante, sufocante, horrorizante, é puta que pariu, Alfonso Cuarón... Nem em meus pesadelos mais insanos eu senti algo assim.

Isso não significa que o cineasta abriu mão completamente do áudio não verbalizado. A trilha do britânico Steven Price é utilizada cirurgicamente, precedendo as tensas sequências "de ação" como se fosse os primeiros tiros de uma guerra. Sempre que aquelas notas distorcidas de sintetizador reapareciam no filme, uma linha de gelo subia pela minha coluna. Um grande trabalho, ainda que, por vezes, tenha ficado um pouco over nos momentos mais emocionais, reforçando um sentimento que já havia sido bem delineado pela atuação. E que atuação. Apesar de todo o esmero e arrojo técnicos, mais uma vez foi o elemento humano que fez a diferença.


Sandra Bullock é o alicerce de Gravidade. Muito provavelmente foi aqui que ela justificou a escolha de sua profissão. Fico feliz por ter sido ela a dar vida à astronauta-de-primeira-viagem Ryan Stone, embora, confesso, é sim um exercício interessante pensar no que fariam outras atrizes com um papel tão rico dramaticamente. Mas talvez seja isso mesmo que faça sua performance algo tão único. Não é superinterpretação - desse mal Sandra nunca poderá ser acusada - e muito menos um ensaio acadêmico sobre arte dramática. É mais a empatia ator-personagem, com todas as suas falhas e limitações. Sua performance é sublime e flui em uníssono com o roteiro. Desde o nervosismo de Ryan ao executar uma tarefa corriqueira, seu perfeccionismo desastrado, a postura reservada quanto à sua vida particular até lidar com mudanças radicais de worst case scenarios e ter que ser adaptar a elas rapidamente de qualquer maneira. E isso é apenas o aperitivo.

Ao ser submetida a uma série interminável de dilemas morais (e mortais), Ryan mergulha em uma experiência que pode ser tanto autodestrutiva quanto transformadora. O silêncio, mais uma vez, se revela um personagem ativo no filme. Na química quase intimista entre Sandra e Clooney, ele funciona como um terceiro elemento em cena, conduzindo alguns dos momentos mais arrasadores do cinema, justamente porque alguma palavra é - ou não - dita.

O paralelo entre Ryan e personagens como Ellie Arroway (Contato) e Elizabeth Shaw (Prometheus) é imediato, senão em suas longas danças com a morte iminente, na antítese: estas estavam dispostas a morrer por suas convicções, eram as Amelias Earhart das heroínas espaciais improváveis; Ryan ainda está pleno processo de transição, mas defendendo suas curtas janelas de tempo com a ferocidade e a desenvoltura de uma Ellen Ripley (Alien). Paradoxalmente, o subtexto de ser uma mulher tentando vencer num território predominantemente masculino faz a simbologia de seu nome soar além do subjetivo - e o filme traz uma explicação que estreita ainda mais essa metáfora.

Carregando uma tremenda bagagem de vida nas costas e sem muito mais a perder, seria muito fácil (e totalmente compreensível) pra Ryan se entregar à aparente inevitabilidade da situação. É disso que trata Gravidade: o misterioso elemento que nos move como seres humanos e a irresistível necessidade que temos de seguir em frente, muitas vezes sem nem sabermos porquê. E mesmo que encontremos uma resposta, esta raramente poderá ser mensurada com palavras. O que é ilustrado perfeitamente no clímax do filme.

E eu achando que um sujeito com Filhos da Esperança no currículo já tinha dito tudo o que precisava ser dito...

Gravidade é um clássico.

Gravidade ("Gravity", Estados Unidos/Reino Unido, 2013), 91 min.
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma, Amy Warren

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Hoje é Thor's day!


Mais do que qualquer outro projeto da fase 1 da Marvel Studios, a ideia de uma adaptação do Thor era, de longe, a mais cabulosa. Difícil até de visualizar em minhas adaptaçõezinhas live-action mentais cultivadas em lugares edificantes como filas de banco, ônibus lotados, salinhas de espera e concursos do Banco do Brasil. Tudo bem, um inventor bilionário numa armadura voadora e um supersoldado da 2ª Guerra com síndrome de Rip van Winkle foram belas amostras do nonsense que permeia toda essa campanha de adaptações da Marvel, mas ao menos esses tiveram suas conexões com a realidade cimentadas com resquícios empíricos à base de ciência, empreendedorismo e futurismo pra viagem. Já um antigo deus nórdico pagão...

Mesmo com o conceito já filtrado e ocidentalizado pela "versão Marvel" dos precursores Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber (Thor acabou virando a puta paga do domínio público: a DC tem dois, a Image também e até a ilustre America's Best Comics deu uma bicada), a simples ideia de personagens mágicos surgindo em cena por si já perfaz uma ruptura do, arram, dogma tecnocrata vigente naquele universo cinematográfico. Se contextualmente era um backflip conceitual, comercialmente, porém, parecia o próximo passo lógico a ser dado. Afinal, se Voldemort e Sauron viraram rockstars, porque não Surtur?

Primeira boa surpresa: a escolha de Kenneth Branagh para a direção, puro futebol-arte. Quem mais qualificado para ilustrar poder, suntuosidade, loucura, tragédia, horror e dramaticidade épicas (ou divinas?) que o gênio que transmigrou Hamlet inteiro para um filme de quatro embasbacantes horas que passam voando? O horizonte ficou ainda mais promissor com a descoberta de que Branagh, além de um excelente vendedor de seus projetos, também era um profundo conhecedor do terreno em que estava pisando. Pra mim, era razão suficiente para celebrar a vida tomando porres de hidromel nas tavernas mais vis do reino.


Bom, Thor não teve Surtur, mas teve Loki, o deus da trapaça e das traquinagens, o Saci-Pererê do folclore escandinavo. Que por pouco não dribla todo o contingente celestial de Asgard e sai correndo com a taça de melhor personagem debaixo do braço. Toda divindade, mágica e mística foram jogadas na sacola da ciência do imponderável, entre planos interdimensionais e galáxias perdidas éter afora n'algum ponto indefinido das 11 supercordas. Resumindo, não eram deuses, eram astronautas. Enquanto isso, Branagh operava bem abaixo de suas capacidades, relegado quase a um timoneiro de luxo. Não de uma nau de guerra viking, mas de um caríssimo iate multiplex em meio a recifes e corais ameaçadores. Sem dúvida, a firma não quis arriscar e limitou os aguerridos movimentos wagnerianos do homem até o limite da completa descaracterização. Só isso explica porque o tom do filme saiu tão soft. Claro que eu não esperava por um Valhalla Rising 2: Ragnarök Now, mas esperava menos ainda pelos açucarados cubinhos de comédia romântica que frequentemente se dissolviam na tela.

Mas pensando bem, salvo em reimaginações autorais, o perfil do Deus do Trovão nos quadrinhos regulares da Marvel nunca foi o do viking primevo e animalesco empunhando um martelo do tamanho de um poste. E em seu universo havia ainda mais conflitinhos pessoais/amorosos do que no filme. Basta lembrar de seus alter-egos com vidas sociais bastante agitadas para um hospedeiro espiritual. O Thor do filme, além de cortar todo o papo furado de identidade secreta disfuncional para os dias atuais (paralelo ao Tony Stark na conclusão de Homem de Ferro), num primeiro momento faz questão de se auto-afirmar como o übermensch tanto no céu (Asgard/Jotunheim) quando na terra (Terra). Não o suficiente para configurá-lo como um überasshole, mas necessário para que sua transformação de um deus para uma pessoa melhor servisse como o rito de passagem que Odin tramava para seu filho e sucessor.

Do ponto A (o Thor imaturo e impulsivo) até o ponto B (o Thor paciente e compassivo) poderia muito bem ter sido um combinado entre a graphic Thor: A Era do Trovão, de Matt Fraction, com o Thor humanista/humanizado do universo Ultimate - especialmente no que tange à sua via crucis terrena.

E não faltam referências ao Cristianismo em Thor.


Muitos fragmentos da narrativa cristã têm passe livre na história, não só nos subtextos do roteiro, como também no timing, na dimensão dos eventos, nas motivações e principalmente no enorme apelo estético de algumas cenas. Temos lá Odin enviando seu filho à Terra despido de toda sua glória e completamente mortal; temos os amigos recém-feitos que, como bons discípulos hebreus, o seguem e o auxiliam em sua jornada, mesmo reprimidos por forças governamentais; seus ensinamentos meio revolucionários meio transcendentais meio bicho-grilo-mermão a esses mesmos amigos-discípulos; Thor se sentindo abandonado por seu pai todo-poderoso e quase perguntando o porquê disso - nem precisava -, reeditando uma famosa cena de sua versão Ultimate; a salvação através do sacrifício; a redenção e a ascensão aos céus; e, claro, a queda do vilão chifrudo do firmamento direto para o buraco (de minhoca?). E com certeza teve mais, muito mais.

Costumo pagar certo pau pro J. Michael Straczynski, que co-escreveu a história, mas gosto de pensar nessas analogias mítico-religiosas como um código Morse transgressor que Branagh enviou subliminarmente aos seus admiradores bem debaixo dos narizes dos censores da Disney-Marvel (eu copiei, Branagh, eu copiei, câmbio!). Porque não devia ser do interesse do estúdio bancar um longa com qualquer outra objetivo que não o de acessório promocional para o blockbuster que foi Os Vingadores. E de todos os filmes dessa primeira safra, Thor foi o que mais teve cara de brinde.

Isso a despeito dos valores de produção, explodindo na telona com a força de mil megatons nos segmentos passados em Asgard (uma magnífica renderização tridimensional da arte de Walter Simonson - a versão 3D do filme, no entanto, foi uma belíssima porcaria). Nem em meus sonhos marvetes mais psicodélicos pude vislumbrar um reino tão grandioso e deslumbrante, ainda que Bifröst pareça dar direto no Studio 54 em plena efervescência disco. Poderia até ter saído diferente, mas dificilmente melhorado - é uma ponte de arco-íris, queria o quê?

O mesmo alto padrão criativo se repete no CGI em torno dos Nove Mundos de Yggdrasil, onde o espaço mais parece um óleo sobre tela vivo retratando os efeitos especiais do filme Contato. A tela verde ainda não é amigável à presença dos atores, mas o espetáculo visual é inegável. Meus olhos saíram de barriga cheia.


Chris Hemsworth provavelmente é o melhor Thor Odinson que o cinema atual poderia vender. Não é como se ele fosse protagonizar a cinebiografia do Laurence Olivier. O filho de Odin é meio como se fosse o Conan ou o Tarzan. Aqui conta mais a postura, o sangue nos óio e o físico do jagunço. Fora que o rapaz nem é ruim, ainda mais beneficiado pelo fato de que a canastrice do Thor dos quadrinhos responde por boa parte do seu charme. E só não blasfemo que Anthony Hopkins nasceu para interpretar Odin porque esse posto já pertence a um certo psiquiatra glutão. Na época do casting, eu torcia por Stellan Skarsgård, por motivos óbvios, mas hoje vejo o quão sábia foi a escolha. Rene Russo, tadinha e ainda linda, teve suas cenas jazendo no Hel da sala de edição. Entrou muda e saiu quase calada. Não muito diferente da Frigga nos quadrinhos, por sinal. Já Colm Feore (esse cara me assusta) também foi desperdiçado, ainda que em menor escala.

Ironicamente, o papel de Loki era o mais traiçoeiro de compor. Facilmente poderia resvalar no histriônico, unidimensional e clichê. Uma verdadeira armadilha de urso que Tom Hiddleston soube evitar com notável destreza (lembra dessa expressão, fiel seguidor? 'Nuff said!). Seu Loki é conflituoso por natureza e tem seu caráter questionável, mas também consegue demonstrar dor e amargura diante de sua trágica situação (um imbróglio familiar interplanetário bem à Novos Deuses). No clímax do filme, Hiddleston manda um olhar de "você morreu pra mim" que é de cortar o coração e pendurá-lo em praça pública.

Os Três Guerreiros renderam a melhor piada do filme e, mesmo sendo esquisito ver um ex-Frank Castle pilotando a barriga do Volstagg, estavam muito bem caracterizados. Assim como - e comeria feliz - a mulher maravilha Jaimie Alexander recheando de curvas a armadura de Lady Sif e segurando o fator tomboy bem firme na coleira, afinal ela pode virar o interesse romântico do herói a qualquer momento, ou filme. Idris Elba, ameaçador. Até hoje não sei porquê o auê em torno da cor da pele do homem. A cota foi descarada, sim, mas ele consegue ser sensacional mesmo naquele modelito de rei da bateria. Ah, contextualmente... o Heimdall do filme não era germânico, nem caucasiano. Nem humano era. Reparou na altura dele em relação aos outros? Isso posto...

Do núcleo "turma de Asgard", senti falta do Balder. Talvez no próximo. Ou melhor, no próximo depois do próximo.


Skarsgård fez um melhor negócio ficando na pele do dr. Selvig mesmo. Além de coadjuvar neste filme, também foi um quase-MacGuffin em Os Vingadores e ainda pegou a continuação de Thor. Confesso que é um pouco estranho vê-lo tanto em filmes-pipoca, mas não tanto quanto ver a Kat Dennings como coadjuvante cômica meio sem ter nada pra fazer ali. Natalie Portman, que provavelmente ainda será adorável quando tiver uns 105 anos, encabeça o trio improvável com uma Jane Foster que não é enfermeira, mas uma astrofísica. Papel que ela interpreta com os pés nas costas e fazendo malabarismo com duas tochas, três gatinhos e quatro facas ginsu. Natalie é a Hit Girl da minha geração. E vem matando dragões há muitas eras antes de levar um Oscar pra casa. Foi bom vê-la ganhando uns milhões de doletas só pra se divertir, trocar umas ideias com o Branagh (a razão dela assinar o contrato) e dar uns amassos no galã musculoso. Ela merece.

O que faz Thor tão coxo quanto o dr. Donald Blake é sua falta de ambição. A cinematografia não chega a ser do tipo TV-movie, como os longas do Quarteto Fantástico, mas também não é muito mais além. A maior parte da verba destinada aos efeitos deve ter ficado nas contas de Asgard, porque na Terra o esquema é muito mais modesto. Toda a destruição do Destruidor (pleonasmo?) beira o inócuo, principalmente durante as investidas dos Três Guerreiros-mais-a-donzela, quando são simplesmente expelidos de um lado pro outros pelos raios do monstro. Thor conjurando o tornado mais fake do cinema e sua luta virtualmente inexistente com o Destruidor foi a cereja. Ou a framboesa. Nos quadrinhos, odes eram escritas em torno desse confronto titânico, que durava páginas a fio e, não raro, terminava mal pro loirão. Anticlímax é isso aí.

Sendo um pouco mais chato, o roteiro também não fez muita questão de esconder seus buracos. No ato final, os Três Guerreiros-mais-a-donzela desaparecem sem grandes explicações. Do mesmo jeito, Heimdall, que seria o cara que resolveria a parada ali pro lado dos mocinhos, evapora. E Odin não precisaria fazer absolutamente nenhuma escolha naquele momento, já recuperado do Sono e com seus superpoderes de deus bombando em suas sagradas veias. A impressão é que eles tinham uma agenda nas mãos, uma deadline no pescoço e nenhuma ideia brilhante naquele momento.

Por tudo o que já foi cometido em nome do personagem, Thor se sobressai com facilidade. Podia ter sido bem melhor? Vastamente. E tinha todas as condições pra isso. Essa permanece sendo minha maior frustração com o filme e que não influi no que ele realmente representa: uma super-produção no mínimo digna daquele Thor das HQs, que mesmo eu, com onze anos de idade, jamais acreditei que um dia sairia daquelas páginas para outro lugar que não fosse a minha imaginação fértil.

Sentimentos fortes no cinema aquele dia. Por um filme que se contentou em ser um mero passatempo.

Thor (EUA, 2011), 115 min.
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgård, Kat Dennings, Idris Elba, Jaimie Alexander, Ray Stevenson, Clark Gregg, Colm Feore

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Guillermo del Simpson

A essa altura, até a minha bisavó já viu a abertura d'Os Simpsons na versão do Guillermo del Toro. Mas o negócio é tão fabuloso que me senti na obrigação de fazer as honras por aqui também. Então toma.


Na minha opinião, a melhor coisa que del Toro faz em anos. E tome entrelinha.

Não podemos deixar de citar também a já clássica versão do(a) Banksy.


Banksy, nós não esquecemos de você!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Canadá off the Dead

Muitas pautas de âmbito global sendo discutidas atualmente, mas desde fevereiro último que o Canadá está na dianteira da grande questão que aflige o mundo. Foi durante uma sessão na Câmara dos Comuns, quando o congressista Pat Martin questionou o ministro das relações exteriores John Baird como vão os preparativos para o iminente apocalipse zumbi!

E aí Exmo. mr. Baird, como vão os planos de contenção?


Canadá representa.

O "deadicated" e o "categorecally" foram infames além da conta...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A.d. Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão


Dizer que Agentes da S.H.I.E.L.D. tem tudo pra ser a melhor incursão da Marvel pela TV não é exatamente um voto de confiança. Ainda mais se tirar as animações da equação e triangular a coisa no formato live-action. Se muito, a Casa das Ideias apenas engatinha nesse terreno. Blade e Mutant X evaporaram sem deixar saudades; Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. e Geração X são aquelas bagaceiras classe Z que me divertem (cada um com seus problemas). Em outras palavras, o saldo é tão negativo quanto a minha conta bancária antes do fim do mês. Mas eis que a Marvel Studios, quem diria, se torna um dos tentáculos zilionários da Disney Company e as coisas começam a acontecer, novos horizontes e velhas gavetas se abrem, segundas chances são dadas...

Ok, o episódio de estreia sugere que a série não é pra mim, um adolescente voando rumo à meia-idade com o jetpack do Rocketeer. Parece ser para adolescentes adolescentes mesmo, o que também resulta numa certa confusão. O adolescente médio de hoje é aquele que se regozija com os banhos de sangue de franquias como God of War, Metal Gear, GTA, Assassin's Creed e por aí vão. E nada os impede de assistir séries adultas como Breaking Bad, The Walking Dead e Game of Thrones. Mesmo produtos pasteurizadinhos como Jogos Vorazes, o Battle Royale versão Crepúsculo, denota certo gosto dos guris por premissas mais gráficas. Por mais que a hipocrisia politicamente correta tente fazer parecer que não.

Apesar disso, o teor impresso nesse debut é flagrantemente infanto-juvenil. E com as marcações típicas dos enlatados investigation procedure, tão em voga desde que CSI deslanchou há 10 anos atrás. O redivivo agente Coulson (Clark Gregg) delega as responsabilidades e ocasionalmente gerencia, os agentes Melinda May (Ming-Na Wen) e Grant Ward (Brett Dalton) são os veteranos badasses encarregados do serviço braçal, enquanto Leo Fitz (Iain De Caestecker) e Jemma Simmons (Elizabeth Henstridge) compõem o núcleo geek, aquele que visualiza o rosto do assassino aumentando o reflexo na retina da vítima. A cereja fica por conta da personagem Skye (Chloe Bennet), realmente uma cereja de bonita e com todos os requisitos para capturar o imaginário dos frequentadores de Comic Con: jovem, sexy, fanática por computadores, super-heróis e conspirações e sempre com uma piadinha e uma referência pop na ponta de sua desejável língua.

Nada contra a fórmula, eu assisto até NCIS. E a produção é de primeira, expensive. O problema é o tom, jovial e ensolarado demais. Entendo que o pacote tem que ser pop, assim como foram os filmes dos quais a série spinoffeou-se. Mas, da mesma forma, podiam ajustar melhor o clima engraçadinho antes de se parecer com algo que Jon Favreau dirigiu no automático. Faltou punch, sobraram piadas (embora a entrada de Coulson tenha sido épica). E a geekstosa dando vários olés nos sistemas da SHIELD com um laptop velho também força a amizade.

Joss Whedon, aqui repetindo a parceria com o irmão Jed e a cunhada Maurissa Tancharoen no posto de showrunner, felizmente é cobra criada na TV-nerd. Cometeu tanto acertos quanto erros importantíssimos para o que seu trabalho é hoje. Isso inclui essa estreia não tão lá e nem tão cá de Agentes da S.H.I.E.L.D.. Espero que seu tempo de reação tenha melhorado.

Claro, foi só o primeiro episódio. Se contar isso, a experiência foi bem gratificante no aspecto fanboy. Afinal, revimos Cobie Smulders, mais crocante do que nunca no colante da Maria Hill, já vimos um flying car da SHIELD...


...e um genuíno Life Model Decoy (lembra deles?) com implantes de memória...


No aguardo pelos próximos. Logo mais tem outro.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

The Walking Headbanger

O guitarrista espanhol Victor De Andrés costuma fazer versões de quase tudo o que sai dos alto-falantes - no seu canal do YouTube encontra-se de babas como "Barbie Girl" até temas de filmes como Piratas do Caribe e Gladiador. Nada muito seletivo, o negócio parece ser pela diversão pura mesmo.

Contudo, o lúgubre tema da série The Walking Dead, composta por Bear McCreary, ganhou uma roupagem extreme metal fantástica nas mãos do sujeito.


Podreira sônica & zumbis é um casamento perfeito. Me perdoe o Urso, mas essa cover tem que ser oficializada na série urgente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Nick Fury: Agent of M.A.L.I.B.U.


Não só as franquias cinematográficas do Marvel Studios são planejadas por fases. Com a estreia de Agents of SHIELD, via ABC, a Casa das Ideias também inaugura uma nova fase em seus planos de dominação (midiática) mundial. Com a série, a Marvel fará o sentido inverso da estratégia da distinta concorrente: se lançar à TV embalada por uma trajetória pra lá de rentável no cinema. O novo projeto retoma o mesmo núcleo de personagens que a Marvel fracassou retumbantemente em engatar nas telinhas a exatos 15 anos atrás, em Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. (Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D., 1998). Uma bela ironia do Dr. Destino que bem merece uma Operação Resgate®.

O piloto foi exibido pela Fox numa época em que não haviam quaisquer dos parâmetros estéticos e conceituais que temos hoje no segmento cinema/super-heróis. Blade, talvez o primeiro filme "super" contemporâneo a trabalhar o gênero com seriedade e estilo, só seria lançado alguns meses depois. O influente Matrix, só dali a 1 ano. X-Men de Bryan Singer, dali a dois. Batman Begins ainda nem sonhava em existir. Em suma, um cenário inóspito e radicalmente diferente de tudo o que temos hoje. Pra piorar, as vibrações camp de Batman & Robin, lançado apenas 1 ano antes, ainda ecoavam fortes pelas salas de cinema e pelas comic shops.

Esse período de entressafra também se estendia aos seriados daquele finzinho de século. A lua-de-mel do público sci-fi com Arquivo X já havia acabado e o formato estava flagrantemente defasado - algo que só viria a se recuperar com alguma qualidade na virada para os anos 2000.

Nesse contexto de adversidades e descrédito, é seguro dizer que foi uma missão suicida, daquele tipo que sempre é lembrada por agentes veteranos para assustar os novatos. Difícil acreditar que o staff da Marvel conseguiu convencer os executivos da toda-poderosa 20th Century Fox a bancar a aventura. Não duvidaria que muitos acordos paralelos surgiram na ocasião, especialmente envolvendo os direitos para o cinema de alguns mutantes e de um certo quarteto.


Com a internet ainda engatinhando na cultura pop e a maioria das novidades da TV e do cinema relegadas à revistas especializadas, qual não foi a minha surpresa em ver o VHS de Nick Fury figurando entre os lançamentos das locadoras. E com o David Hasselhoff no papel, um dos canastrões que eu mais assistia quando guri, em A Super Máquina - e depois, não tão guri, em SOS Malibu (bom, não era ele quem eu assistia...). Verdade seja dita, fisicamente, ele ficou muito parecido com o carrancudo diretor da SHIELD. Não o gangsta Fury, feito à imagem e semelhança de Samuel L. Jackson, mas o Fury original. Aquele mix de James Bond com Sargento Rock concebido por Stan Lee e Jack Kirby e posteriormente elevado à l'état de l'art pelo megalomaníaco Jim Steranko.

Mas essa primeira impressão ligeiramente positiva não durou muito. Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. era um made for TV com tudo o que tinha direito: produção a toque-de-caixa, efeitos dos anos 1970, trama ridícula, direção de jardim de infância e presepadas em geral. Como o tempo é um traidor de percepções, eu imaginava se tinha sido duro demais com o filme ou até mesmo se ele envelheceu melhor do que o esperado - o que é algo meio idiota de se pensar, mas que até faz sentido quando se tem alguma afinidade com as tosqueiras B que a vida nos traz. Se algo ficou melhor no filme, com certeza vai depender do senso de humor do espectador.

A história foi escrita pelo onipresente David S. Goyer. Mas poderia ser de algumas páginas que Jeph Loeb descartou do roteiro de Comando para Matar, tal a profusão de ideias jeniais, diálogos bisonhos e frases de (d)efeito.

No início do filme, vemos uma infiltração numa base da SHIELD - só para registro, Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão em português, Strategic Hazard Intervention, Espionage and Logistics Directorate nos quadrinhos atuais e Strategic Homeland Intervention, Enforcement and Logistics Division no filme. A ficha cai quando o espião entra num setor chamado Cryogenics Section, que, certamente, serviria como uma espécie de fonte de supervilões projetado pelos produtores. O que não é de todo uma má ideia. Uma fonte de matéria-prima para eventuais episódios "monstro-da-semana" sempre foi um dos recursos mais utilizados por séries de TV. De Arquivo X, a Sobrenatural, a Fringe, todos tiveram os seus.

E o arqui-inimigo da vez era realmente o 1º arqui-inimigo da SHIELD.


"Olá, velho bastardo..."

O Barão Wolfgang von Strucker foi o líder da organização terrorista HYDRA. Por que ele é mantido em permanente estado de sorvete nazi não se sabe, já que o filme não faz nenhuma menção a isso.

Mas a intenção e a procedência do agente infiltrado ficam bastante claros, ainda que o agente Clay Quartermain (lembra dele?) não se dê conta disso e apareça de surpresa para um descontraído papo de cafezinho.


BLAM! (onomatopéia aqui)

Pelo visto o papo não descontraiu e Quartermain leva um pipoco nos rins.

Vale observar que nos quadrinhos, Quartermain sempre foi um tipo pomposo e arrogante, mas aqui o ator Adrian G. Griffiths parece ter composto o personagem se inspirando no Chet, o irmão mais velho do Wyatt de Mulher Nota 1000. Ele parece um sociopata que realmente merece levar um tiro.

E queria muito encenar uma morte num filme, já que supervaloriza a coisa e demora uns 5 segundos pra finalmente desabar no chão.


"Yippee-ki-yay, motherfuckeeeeer!"

Mas não tão rápido! Enquanto o resto da base é neutralizada por um ataque a gás, Chet Quartermain sobrevive e encontra uma máscara pra se proteger.

E depois se dirige heroicamente ao encontro dos invasores...


"Perigosa, êêêê... ela é perigosa... êêêê..."

...apenas para levar uma saraivada de tiros de AR-15 e AK-47 por todo o tórax, mostrando que esqueceu qualquer treinamento envolvendo pontos cegos e auto-preservação durante um tiroteio.

Como a dona Morte devia estar dando uns amassos com o Thanos àquela altura, inexplicavelmente Quartermain ainda sobrevive para levar uma bicuda nas costelas e descobrir quem é sua algoz, que deixa um recadinho malcriado para Nick Fury na microcâmera do agente.

"A vingança será minha", diz ela.

Atenção na loira.

Ela é a filha do Barão Strucker, Andrea von Strucker, a vilã da trama. No filme ela usa o codinome Viper, num caso de flagrante apropriação indébita. Nos quadrinhos, Viper é Ophelia Sarkissian, anteriormente conhecida como Madame Hydra. Aquela, das volumosas madeixas verdes. E Andrea, juntamente com o irmão gêmeo Andreas, tem o codinome Fenris. Vai saber porque inverteram a coisa toda. Mas isso é o de menos...

Andrea é interpretada pela suíça Sandra Hess, que, apesar de bonita (foi a Sonya Blade até), é a responsável por boa parte da ruindade deste filme. É uma das atrizes mais canastronas que já vi exercendo a profissão. Não vejo nada igual desde Cinderela Baiana. Com muita boa vontade, daria pra elencá-la no cast do seriado do Batman dos anos 60. E mesmo assim correríamos o risco de um ataque de pelanca por parte de Adam West e Burt Ward.

Se a intenção dela foi soar forçada, histriônica e incrivelmente poser, parabéns. Missão cumprida e com louvor.

Mas voltando...

Mediante à invasão da base, ao roubo do corpo do Barão e aos seguidos assassinatos do agente Quartermain, a solução foi recorrer a um veterano-aposentado-brucutu-fodão.

Aquilo que comentei sobre Comando para Matar...


"Será que é ele mesmo nessa caverna? O famoso Nick Fur..."


"Deixa pra lá"

O ex-soldado John Rambo participava de sangrentas lutas com bastões na Tailândia. O ex-coronel John Matrix cortava sequóias para abastecer sua lareira. Já Nicholas Joseph Fury curte a aposentadoria trabalhando numa velha mina abandonada!

Sol, cerveja gelada e bem-alimentadas garotas de biquini é para fracos.

Quem faz o contato inicial é o novato Goodwin Pierce, papel do ator Neil Roberts. O agente é o alívio cômico da história e não só é chatinho, como de fato lembra muito Ramon, o famoso "Pool Guy" de Seinfeld. Deve ser algum primo.

Obviamente, ele não consegue despertar o menor interesse no atarefado Fury, que tem sua cota de dissabores com a velha organização. Mas nada tudo é tão ruim que uma abordagem correta não conserte.


"Eita!"


A expressão de fracasso do aspira é comovente

Essa é Contessa Valentina de Allegro Fontaine. "Val" para os íntimos. Personificada pela Lisa Rinna e seus lábios abnormalmente carnudos e entorpecivelmente convidativos.

Infelizmente, ela não comparece paramentada como nos quadrinhos...


...mas vemos la doce Rinna correndo pra lá e pra cá com um uniforme de couro justinho e fazendo biquinho de mean girl. Também sabemos aí que ela já foi território de Nick.

Val informa a Fury que abotoaram o paletó de seu velho chapa Quartermain, concluindo com um diálogo badass tão clichê que ficou até bacana:

Val: "Soou como se tivessem te mandado uma mensagem" 
Fury: "Parece que ouvi!"

Daí pra Fury tirar a poeira do seu distintivo e ir para o helicarrier é um pulo.


O famoso porta-aviões aéreo não ficou tão tosco quanto se poderia supor, logicamente descontado o CGI primário do orçamento disponível. O curioso é que mesmo com a fachada de alta tecnologia, a estética e o visual interno da nave é de um antigo encouraçado, com porões, portas de escotilha e afins. De uma maneira um pouco melancólica, me recordou dos saudosos tempos de Space Battleship Yamato.

Já a bordo, Fury reencontra velhos amigos dos tempos de Guerra Fria, como o Dr. Gabriel Jones (Ron Canada) e o bonachão modafocka Timothy "Dum Dum" Dugan (Garry Chalk).

Quer dizer, "bonachão modafocka" nos quadrinhos...


No filme ele parece meu professor de matemática do 2º ano.

Na sequência, Fury faz um breve tour para se atualizar e logo flerta com o estilo Dredd de ser: conhece uma agente telepata - Kate (Tracy Waterhouse), a única personagem dotada de algum superpoder no filme - e ganha uma pistola configurada com sua assinatura térmica (quem tentar dispará-la ficará eunuco). Muito sutil.

Mas Fury se espanta mesmo com a última novidade da SHIELD: os replicantes LMDs (Life Model Decoys). Inclusive havia um quase pronto e personalizado com a fuça do caolho.


"Now that's a scary shit!"

Todos nós já sabemos onde isso vai dar (shame on you, Goyer!). Mas o crédito tem que ser dado. Esses replicantes não apenas existem nas HQs como fazem parte dos recursos jurássicos da SHIELD criados originalmente pelo dynamic duo Lee & Kirby.

Enquanto isso, Andrea e Andreas planejam os toques finais de sua vingança. A ternura e o afeto entre os irmãos remete ao Pietro e à Wanda do universo Ultimate.


Mas trabalho é trabalho e Andrea aproveita pra dar uma prensa nas cabeças da HYDRA instaladas no Cairo, Londres, Praga e Osaka. À toa, diga-se, já que eles não aparecem mais depois disso.

Em seguida, os heróis seguem uma pista até Berlim. Lá, encontram a agente alemã mais estereotipadamente noir que a produção conseguiu fazer. Juntos, enfrentam alguma resistência até prenderem e interrogarem o infame Arnim Zola, gênio geneticista da HYDRA, que não é o Toby Jones, nem tem a cabeça no meio do tronco. Aqui ele é só um velhinho muito encarquilhado em uma cadeira de rodas.


Teimoso, Zola se recusa a dar pistas sobre o paradeiro de Andrea. Kate então tenta ler a mente do sujeito e não gosta nem um pouco do que vê: trechos de antigos documentários sobre a 2ª Guerra e filmagens de arquivo de testes nucleares que até a minha avó tá careca de assistir, revelando que Zola é um ávido espectador da TV Cultura.

E não para por aí: Zola fez um condicionamento cerebral que o protege contra hackeadas mentais e ejeta os invasores de sua cachola embolorada. Ok, isso foi bem legal.

Não muito longe dali, Nick acha que é seu dia sorte e que está prestes a pegar uma gata pomerana do serviço secreto. Contudo, ele é traído e, através de um beijo, envenenado com uma toxina de rã (é sério isso).

Pra piorar, ele descobre que a loirinha na verdade é...


"Oh, shit... Andrea?! Continua!!"

De volta ao QG voador, Nick é informado que só tem até o fim do filme pra encontrar um antídoto, prender os bandidos, dar umazinha com a Val e ainda conseguir fechar com a Fox a produção de uma temporada inteira disso aí.

De repente, surge um andróide-clone do atual diretor da SHIELD, que é um baita pé-no-saco. Talvez por isso que é prontamente recebido a bala por Fury.

Nesse momento me ocorre duas coisas.



1) Esse Nick pode não ser gangsta, mas atira igual a um mano!

2) Como diabos o andróide chegou ao porta-aviões aéreo pairando a quilômetros de altura?

Isso permanecerá um mistério para a posteridade, mas o fato é que ele traz um sms ameaçador de Andrea.


A HYDRA irá atacar New York com mísseis contendo o supervírus Death's Head, a menos que sejam depositados 1 bilhão de clintons em suas contas nas Ilhas Maluf.

Mas o pior ela deixa pro final, na forma de um trocadilho ultra-infame vindo direto da mente prevelejeada de Goyer:

"Against HYDRA, there's no shield!" (escudo)

Urgh.

Tem início então uma corrida desesperada dos mocinhos em busca dos terroristas. Fury, Goodwin e Kate vão ao encalço de Andrea, enquanto Val lidera uma equipe tática para vaculhar a Big Apple atrás dos mísseis.

Nesse ponto desperta um certo déjà vu.


O cerco a um furgão parado num beco, Val reportando à base em tempo real, a arriscada missão de desativar uma arma de destruição em massa no centro de uma metrópole, o clima de tensão no ar...

Caramba... 24 Horas puro! Quase dá pra ver o Jack Bauer ali falando "Dammit Chloe, we're running out of time!".

Faltou só o... o...

Peraí... Curtis?


 Curtis, é você mesmo, meu filho?



Curtis!!

Confesso que foi uma grata surpresa rever o Curtis Manning - aqui creditado apenas como "Shield Agent #1" - chutando bundas terroristas novamente. Ou melhor, anteriormente, visto que o agente Bauer só começou a interrogar pobres almas em 2001.

Como a vida de herói não é fácil, o furgão era uma pista falsa. A carga na verdade estava sendo transportada num caminhão de lixo.


Por sinal, o caminhão de lixo mais suspeito da história da espionagem.

Só o naipe do motorista já derruba qualquer disfarce.


Um pequeno adendo aqui... Andrea é assessorada por um time de lacaios idênticos, algo robóticos, de terno, gravata, óculos escuros, parecendo agentes M.I.B. albinos.

A trama nunca revela qual a natureza desses drones esquizóides, tampouco se formam a guarda de elite pessoal da vilã. No filme, a HYDRA conta com vários tipos de mão-de-obra especializada em suas fileiras (espiões, técnicos, cientistas, soldados, etc.), o que os deixa muito redundantes no quadro geral.

Nos quadrinhos, a força de trabalho da HYDRA é só um exército de stunts com uniforme verde e pronto. Menos é mais.

Por incrível que pareça, os vilões atravessam a cidade numa boa e estabelecem a base num cais abandonado (onde mais?). Lá, os mísseis da HYDRA são ativados, configurados, preparados...




E apontados para...


Oh.

Lembrando que, em 1998, essa não era uma possibilidade nem um pouco plausível. E que outros filmes também já exploraram a ideia de forma ainda mais incisiva. Mas que deu um frio na espinha, isso com certeza.

Sem muita dificuldade, Val consegue encontrar o covil e enfiar um balaço na cabeça do Andreas, mas o ataque ainda é iminente, já que os mísseis foram programados e a contagem regressiva já começou.

Impressionante como preferem esperar pelo Nick ao invés de removerem a plataforma inteira dali, evacuarem as torres ou chamarem o esquadrão anti-bombas.

No outro front, os mocinhos caem numa cilada e são capturados por Andrea, já testando o figurino que usará em seu aguardado ensaio para a Penthouse.


Fury não tira um olho

Após uma fuga mirabolante do calabouço, onde Fury literalmente arranca um C4 na cavidade ocular baldia atrás de seu tapa-olho (desafio qualquer um a não rolar de rir com a cena), os heróis travam uma batalha épica contra o time HYDRA.

O primeiro a rodar é Arnim Zola, que tenta atirar em Fury com a arma dele...


...e fica eunuco no processo. Não que vá fazer falta.

Tem início então um mano a mano entre Fury e Andrea, em que ele consegue perder no braço pra magrela. A vilã termina o serviço crivando de balas o veterano agente, cujo corpo se estabaca no chão, já sem vida.

E é aí que vem uma das cenas mais sensacionais do filme.


"Ahahahah, se fodeu Bátema... digo, Fury. Se fodeu, se fod... hã?"


"Não fui eu quem morreu, sua putinha relaxada, foi meu clone eunuco!"

Depois dessa, Andrea manda tudo à merda. Ela é presa, o antídoto que existe em seu sangue é recolhido e os códigos para o desarme dos mísseis são extraídos de sua mente à fórceps.

O dia está salvo!

Mas a filha do Barão é guerreira. Consegue se libertar das algemas (?), driblar a metade do contingente da S.H.I.E.L.D. que lotava seu QG e fugir com o corpo criogenizado do papai Strucker.

E ainda joga beijinho.


"Tchau, seu corno manso, a gente se vê na Batcaverna!"

Com tudo resolvido, Fury finalmente acerta as velhas pendências com a S.H.I.E.L.D., retoma seu lugar na cadeia de comando e ainda arma aquela transadinha exxxperta com a Val.

Isso não vemos, mas somos brindados com um lindo final romântico com direito à pôr-do-sol visto do helicarrier...


Droga.

Mas espere. Isso é um filme pra TV. E também um piloto. Tem que reforçar a continuidade.

Ou seja...


Castelo sinistro, check.


Vilã ressurgindo das sombras ostentando um enorme camel toe... check.


Barão Strucker voltando aos negócios, check.


Mais demonstração de carinho familiar WTF, check.


HUAHEUEHUAEUHAUE vilânico... check!

E esse foi o epílogo feito especificamente para dar base aos vindourous episódios... que nunca vieram.

É claro que não dá pra esperar nada muito louvável de Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.. Mas se o espectador casual se aventurar no filme com isso em mente, é provavel que saia recompensado no final das contas. Com certeza, o filme oferece bem mais risos e diversão involuntários do que a maioria das produções atuais feitas para esse objetivo. E não apenas pra quem tem boa tolerância à tosqueira. 

Excetuando se for fanboy de qualquer tipo ou cinéfilo restrito à superproduções sisudas e candidatas à épico. Nesses casos, passe muito longe e fuja, fuja para as montanhas.

Bom, S.H.I.E.L.D. TV em dia.

Agora deixa eu ver como anda aquela season premiere que eu joguei no uTorrent...


Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. ("Nick Fury: Agent of Shield", EUA, 1998), 90 min.
Direção: Rod Hardy
Elenco: David Hasselhoff, Lisa Rinna, Sandra Hess, Neil Roberts, Garry Chalk, Tracy Waterhouse, Tom McBeath, Ron Canada, Peter Haworth